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22 May
23. Com qual matéria nasce uma história?

Quando o gato sobe no telhado é uma pequena história que escrevi numa oficina de textos para a infância ministrada pelo querido escritor Claudio Fragata. Ele nos passou a tarefa de escrever uma história triste. Escrevi. Eu sempre achei que deveria publicar essa história, mas por ser um texto triste, que a publicação viria depois de publicar outras histórias. O fato é que as outras histórias para a infância não aconteceram, chegou a pandemia e seus desdobramentos. Achei que um poema que fala sobre a perda deveria circular. Resolvi tirar a história da gaveta e fazer virar um livro.

Estou contando tudo isso por um único motivo. O livro está praticamente pronto, ilustrado, com a parte burocrática resolvida. Mostrei para minha mãe faz pouco tempo. Diferente de outros textos, ela me disse que não tinha muito o que comentar. Disse que eu escrevi uma história que ela viveu. Eu fiquei tocada com o que ela disse. Ela perdeu o pai quando tinha 6 anos. Questões passarem na mente:

- Escrevi para ela, por ela?

- Será que de tanto ouvir ela falar do pai eu acabei escrevendo, contando sobre a sua perda? 

- Com qual matéria nasce uma história original? 

Pensei na criação dando vazão a uma série de coisas que vivemos, sentimos e ouvimos. Às vezes distraídas, escrevemos achando que foram inventadas. 

Ontem eu liguei para minha mãe. Dentre muitas lembranças sobre o apartamento - livros de receitas, lembranças e coisas que ando escrevendo aqui - falei do meu avô. Falei sobre um bilhete que meu avô escreveu para minha avó. O bilhete foi encontrado na mesinha de cabeceira da Dedé (apelido da minha avó), depois que ela morreu. Ela guardou esse bilhete de antes de 1950 até dezembro de 2015 quando  partiu. O bilhete tem humor sofisticado, irônico. Comentei que meu avô deveria ser uma pessoa divertida, que gostava de inventar histórias. Ela disse que as pessoas sempre contavam para ela as histórias que viveram ao lado dele. Gostavam dele. Eu não o conheci. Mas também gosto dele. Acho que ele também ia gostar da música que escrevi para Zezé, forma como ele a chamava. 

Na canção, eu só queria falar com a minha Dedé. E falei. 

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