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09 Aug
89. Sempre livre

Dois textos. O primeiro, de hoje, motivada pela pergunta da postagem anterior. O segundo, 2012 ou 2013. A memória, parece a mesma, mas são outras camadas. A Sônia perguntou: que capacidade é essa que temos de tocar nas próprias lembranças? E por que dói tanto? Achei que as duas perguntas são o mesmo que uma dança. Sinto o vento frio lambendo o rosto quente e vermelho da bailarina. Danço para tentar responder. 

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1.

A menina chega em casa com o agasalho amarrado na cintura. A calça  azul escuro, o sangue denso deixou a parte do meio das pernas ainda mais escura. Estava marcada do seu sangue. Tinha 12 anos, dia 31 de maio de... 1983? A Dedé emocionada falou, dia de Nossa Senhora. Após o banho, um absorvente, Sempre Livre? 

Já mulher, cirurgia retira o útero. 33 anos, maio de... 2004? Mioma. Quando menina, assistiu a mãe passando por isso. Parece que a Dedé passou por isso também, se não me engano. A mãe perdeu muito sangue até o dia de operar. Deve ter sangrado depois também, até tudo acabar.

A menina, antes dos 11, era trapesista ou escaladora de gavetas e prateleiras. formava escadas e subia. Não sobrou prateleira de armário, bancada de banheiro ou cozinha que não conheceu seus pés. A graça era subir e ver o que tinha dentro dos armários, para ver como era o mundo mais em cima. As gavetas, madeira, natureza, a menina da cidade reconstruiu suas árvores de dentro, ninhos e canto de passarinhos.

No armário do corredor, encontrou uma caixa branca de presentes. Um macacão branco e um xale, de bebê. Iguais aos que a Vó Alzira tricotava. Visitava a caixa branca de tempos em tempos, visito até hoje. Como seria o irmão?

Dói demais não saber.

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2.

Você já perdeu sangue?

Minha mãe perdia sangue e não conseguia se levantar da cama. Um corpo entregue à ferida aberta. Eu achava que era um tipo de preguiça.

Quando eu fiquei mocinha eu ganhei um Modess. Era dia de Nossa Senhora e recebi a graça da Virgem. Me abri para o sangue e abençoei o primeiro ciclo: nascer-amadurecer-apodrecer-morrer.

Todo mês um pedaço se vai. O corpo aponta inchaço, sangue... preguiça?

Mulher perde todos os meses. Recolhimento e dor. Irritação e medo. Perda.

Você já perdeu?

Sangue?

Você já perdeu?

Um filho?

O sangue escorre pelas pernas e você já sabe, apodreceu. O que sobra é deixar o útero escamar, lavar a dor com sangue. Depois te colocam deitada, uma tristeza...

Espécie de preguiça?

Texto que escrevi em 2013 para a peça A Espera Dela, do grupo Instante. 

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